Entrevista com Washington Fajardo: precisamos reaprender a ler a cidade

Arquiteto e urbanista, que entre 2009 e 2016 esteve à frente de projetos de revitalização de bairros no Rio de Janeiro, Washington Fajardo dá a receita: com medidas simples e de baixo custo, é possível tornar as cidades mais agradáveis, valorizando os aspectos históricos e de convivência. Em sua palestra no Mapa das Cidades, em Cabo Frio, onde morou dos dez aos 17 anos, Fajardo motivou os comerciantes e os demais atores da sociedade local a se unirem e desenvolver projetos de fácil execução.

Washington Fajardo, urbanista Foto: ERBS JR.

Washington Fajardo, arquiteto e urbanista | Foto: ERBS JR.

Confira o bate-papo completo a seguir:

O senhor frisou que é preciso recuperar os modelos tradicionais de cidade e usou o conceito de “walkabilit” (“caminhabilidade”) – fazer uma cidade agradável para as pessoas andarem por ela – em contraponto ao conceito de cidade moderna. Por que a primeira concepção hoje está mais em voga do que a segunda?
Desde os anos 70, ficou evidente com a crise energética, com a crise do petróleo, que a cidade baseada em deslocamento do automóvel individual não funciona, é economicamente insustentável. Além desse aspecto, ela traz um problema de escala local, de comunidade, que é a destruição do espaço público e da possibilidade da convivência. Isso atinge principalmente os centros urbanos, os centros históricos, as áreas de comércio, as áreas onde há atividades mistas, onde as pessoas moram. A gente precisa resgatar esse espaço público compartilhado. Não quer dizer que não se vá mais usar carros. E a gente sabe bem, principalmente em cidades médias, que não podem contar com transporte público de massa, que o carro tem um papel decisivo. Precisamos botar em perspectiva o espaço para o pedestre.

O que isso significa?
Significa ter uma boa calçada, cuidar do espaço, ordená-lo e até embelezá-lo. Isso é decisivo quando se fala de áreas com ruas de comércio, de concentração comercial. A cidade é o lugar da diversidade, também é um lugar de encontros fortuitos. O shopping não é uma cidade. Precisamos das cidades para ter um bom desenvolvimento social, um desenvolvimento ambiental. As cidades são uma grande solução que a humanidade inventou para poder usar o planeta.

O senhor diz que, para desenvolver esse trabalho, as pessoas precisam “reaprender a ler a cidade”. Como se faz isso?
É prestar atenção nesses aspectos que estão na nossa cara e não olhamos mais: a gente anda, mas não tem lugar para atravessar, não tem faixa de pedestre, não tem acessibilidade, tem buraco na calçada. Infelizmente nos acostumamos com esses problemas. Por quê? Porque estou atrasado para um compromisso, porque tenho conta para pagar, tenho que ganhar dinheiro, tenho que pegar as crianças na escola… Minha função como arquiteto é prestar atenção nesses problemas. Muitas vezes achamos que, para melhorar, são necessárias grandes soluções. Não. Comece resolvendo as calçadas, tornando as calçadas caminháveis, criando espaço para o pedestre, pintando a travessia, seguro para a criança, seguro para o idoso. E assim, paulatinamente, a gente começa a reaprender a utilizar a cidade.

Então são medidas simples com baixo custo?
Sim. E elas (soluções) podem ser alcançadas de maneira mais simples do que a gente pensa.

O senhor caminhou pela cidade de Cabo Frio. Qual o seu diagnóstico?
Cabo Frio tem uma grande vantagem competitiva, que é o aspecto histórico e, sem sombra de dúvida, a beleza natural, o fato de a cidade no passado ter estabelecido controle sobre a altura dos edifícios. Essa preocupação de planejamento urbano que Cabo Frio tomou nos anos 60, a gente observa hoje. Não se vê essa qualidade em outras cidades litorâneas, infelizmente. Acho que a gente precisa olhar mais para o centro da cidade. Morei aqui, tenho memória da Praça Porto Rocha muito mais arborizada, muito mais agradável. Não havia tanto comércio como se tem hoje, mas era mais agradável. Estou falando da perspectiva de uma pessoa que era criança e adolescente e usava a cidade. Hoje, a gente vê que a cidade oferece menos possibilidades de uso mais intenso.

O que poderia ser feito a curto prazo?
É preciso uma atenção muito concentrada nesse centro que vai da Praça Porto Rocha até a região do convento, das ruas de pedestres. Não estou falando em grandes obras, e sim de colocação de um banco, limpar melhor, instalar um bicicletário, umas floreiras nos postes. São coisas muito simples, mas que a população percebe e, principalmente, o comércio percebe. O ponto é: também não estou dizendo que alguém vai ter que fazer. Vamos fazer juntos? Vamos reunir o comércio e oferecer uma solução?

O encontro do Mapa do Comércio serve então para criar uma ação conjunta?
A crise serve para isso. A crise que a gente está vivendo, econômica, política, é para olharmos e perceber: ninguém vai resolver esses nossos problemas. Não é preciso uma nova cidade. A cidade tem qualidades aqui, podemos avançar juntos. Dá para cuidar.

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