Entrevista com Ronaldo Lemos: “A inteligência já está na mão do cidadão”

Mestre em Direito por Harvard, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade e representante no Brasil do MIT Media Lab, o pesquisador Ronaldo Lemos ressalta a importância do Mapa do Comércio na busca por soluções coletivas de problemas que afligem os municípios fluminenses. “Não há outro jeito. Ninguém de fora vai resolver, não haverá solução mágica”, afirma. Um dos participantes da etapa regional em São João de Meriti, ele disse que tecnologias de baixo custo e acessíveis a qualquer cidadão com um smartphone nas mãos têm efeitos multiplicadores e revolucionários e já ajudaram a melhorar políticas públicas em cidades de outros países, o que pode ocorrer também no Estado do Rio.

O advogado Ronaldo Lemos

Ronaldo Lemos, diretor Instituo de Tecnologia e Sociedade.

Confira o bate-papo completo a seguir:

Como o Mapa do Comércio ajuda pessoas a repensar as cidades, de modo a que elas sejam mais bem geridas?
As pessoas precisam se encontrar para, juntas, pensarem nas soluções dos problemas. Não há outro jeito. Ninguém de fora vai resolver, não haverá solução mágica. O único jeito de lidar com problemas locais é as pessoas trocarem ideias, entenderem o que está acontecendo no mundo. Acho que o Mapa do Comércio foi uma iniciativa muito feliz nesse sentido porque fez com que os municípios do Estado do Rio pensassem em soluções. Não tem como não frutificar, isso planta sementes que são importantes, e a ação acontece na hora. As pessoas saem energizadas e com muitas ideias que, depois, vão implementar.

E para essa interação, a tecnologia, segundo sua palestra, ajuda muito e está ao alcance do bolso…
Exato. A maioria das mudanças que podem ser feitas com tecnologia não custa nada. Eu divido os prédios do Brasil entre aqueles onde os moradores se organizaram por meio de uma comunidade do WhatsApp e aqueles onde não se organizaram. Aqueles que se organizaram têm muito mais segurança, uma administração melhor, os moradores estão sempre em contato, de olho para ver se há movimentação estranha nas redondezas. Parece simples, mas que tem um impacto imediato. Esse tipo de medida pode ser usado não só em prédios, mas também em vizinhanças, distritos, comércio, grupos de pessoas com interesse comum. Elas se organizam por meio dessa tecnologia, que é barata. A partir dali, começa uma troca permanente de informações. É uma forma de organização espontânea e que vem de baixo para cima.

Como o poder público pode usar essa tecnologia para melhorar seus serviços?
O poder público também pode ser um gerador dessas mudanças. E o custo disso é zero ou muito baixo. Por exemplo, criar uma interface ou um site no qual o cidadão pode avaliar a qualidade dos serviços municipais, uma espécie de “uberização” do serviço público. O custo para fazer isso é pequeno, acessível para a maioria das cidades. Com isso, a prefeitura passa a ter dados. E hoje não existe ferramenta melhor para administrar a cidade do que ter informações. Um prefeito vai ser melhor ou pior na medida em que tenha acesso a maior ou menor quantidade de dados. Se ele botar os cidadãos para participar e dividir com ele a experiência com os serviços municipais, vai poder melhorar a gestão de forma muito mais eficiente.

Onde isso já ocorreu?
Em vários lugares. Nos Estados Unidos, muitos. Por exemplo, a cidade de Washington D.C. (capital norte-americana) criou um grande portal que se chama “Dê uma nota para Washington”; os cidadãos avaliam o tempo inteiro. É um caso de sucesso.

E tudo com tecnologia simples?
Quando as pessoas ouvem “cidade inteligente”, parece que virá alguém de fora e fará a cidade dela ficar inteligente. Não, a inteligência já está na mão do cidadão. O cidadão que tem um smartphone pode hoje participar da mobilização e do debate sobre a cidade dele. Essa tecnologia já está na mão de todo mundo. É uma questão de perceber que você pode fazer aquilo acontecer sem investimento nenhum, está todo mundo conectado.

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